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“Não é hora de vir” dizem donas de pousadas em Urupema que decidiram não abrir na neve

Mesmo com as baixas financeiras, proprietárias decidiram fechar pousadas durante nevada para não estimular turismo na região em tempos de Covid-19, preservando a saúde da comunidade

Pousada laranja construída nos últimos quatro anos é a paixão de Margarete. E também uma das principais fontes de renda – Foto: Felipe Bottamedi/Divulgação/ND

“Estou muito triste, mas é para o bem de todos” desabafa Margarete Godinho, dona da pousada Alternativa AM, no Centro de Urupema, município da Serra catarinense. Os oito quartos de hospedagem foram construídos no entorno da casa quando decidiu, há quatro anos, trocar a roça pelo trabalho de abrigar os curiosos pelo frio.

Mas, para a nevada prevista para esta sexta-feira (21) e final de semana, ela decidiu manter as portas fechadas. Diante da pandemia de Covid-19 pelo menos outras três pousadas no município também ficarão fechadas. As proprietárias temem se contaminar com a Covid-19, e também querem manter seguros familiares, amigos e vizinhos.

Com acúmulos de neve previstos entre 25cm e 30cm, o espetáculo natural promete ser ainda mais rigoroso do que aquele registrado em 2013. Raro, as últimas duas vezes que nevadas nessas proporções ocorreram na região foram nos anos de 2010 e 2013.

Deixar de receber turistas é uma decisão delicada para Margarete. A pousada, além de ser sua paixão, conta com diárias que giram em torno R$ 140, tornando-se a principal fonte de renda para a família. “Eu preciso ganhar dinheiro. Mas também preciso lembrar dos meus filhos. E eu quero viver”, pondera Margarete.

Mais de 160 pedidos de reserva (negados) nos últimos três dias

Enquanto conversávamos nesta quarta-feira (19) na sala da pousada, respeitando a distância de 1,5m, o celular dela não parava de apitar. Entre mensagens de Whatsapp, e-mails, solicitações em sites como Booking e Airbnb, Margarete recebeu mais de 160 pedidos de reserva nos últimos três dias.

“Ás vezes, eles até insistem e me perguntam ‘quantos casos têm aí?’. Eu digo que temos apenas um. Mas também digo que temos apenas um caso, pois tomamos todo esse cuidado. Se não fosse por isso, estaríamos enfestados” afirma.

Até esta quarta-feira (19), a região Serrana já havia perdido 66 moradores para a Covid-19, e 3.693 casos já foram registrados. No último dia 12, a região entrou na classificação gravíssima da Secretaria Estadual de Saúde, referente ao índice de transmissão do novo vírus. Urupema foi ó último município a registrar contaminação, e até a data conta com um único caso confirmado.

“Procura nunca foi tão grande”

Com seus cinco quartos que abrigam, ao todo, 12 pessoas, Mafalda Aparecida  construiu o “Cama e Café da Mafalda” há nove anos. O local já abrigou turistas durante nevadas tão fortes como aquela registrada em 2013. Mafalda conta que, neste ano, a procura por quartos é ainda maior.

“De ontem pra hoje [dia 19] recebi cerca de 30 ligações. Nunca tinha visto tanta procura, fiquei até cansada de responder”, conta a proprietária. “No início, até explicava que não abriria devido à pandemia. Mas, depois, dizia que tava lotado. Cansei de ficar explicando e, às vezes, o turista se ofende”.

Em parte, a busca por hospedagem ficou mais intensa nessa pandemia em razão das restrições impostas pelo decreto estadual que estabelece ocupação máxima de 50% nos estabelecimentos hoteleiros. Alguns municípios da Serra restringiram ainda mais, limitando para 40%.

O que preocupa Aparecida, além da sua segurança pessoal (aos 69 anos, ela compõe o grupo de risco para o contágio da Covid-19), é a segurança da cidade. “Não é hora do pessoal vir pra cá. O inverno é muito bom para gente, principalmente porque aqui não tem muito emprego. Mas não podemos pôr a vida da gente em risco” ressalta.

Turista deveria se conscientizar, alerta proprietária

A pousada “Cama e Café da Tânia” nasceu pela hospitalidade. Começou através de um almoço servido por Tânia Wolff a um turista, no qual ela recebeu em troca a ideia de passar a abrigar os visitantes da cidade na casa dela, há cerca de quatro anos atrás.

Mas desta vez escreveu no status do Whatsapp e no perfil do facebook: ‘Devido à pandemia, não estamos atendendo ninguém’. Ainda assim, seu celular não para. “Meu marido, que pegou férias, não aguenta mais o telefone tocando”, conta ela, aos risos.

“Sempre fiz de tudo pra receber bem o turista, mas agora não é época para recebê-los. O turista deveria pensar. Se eu fosse ele, não iria. Temos que preservar famílias, pais e mãe” ressalta Wolff.

Parte do seu receio é que venham turistas assintomáticos e que transmitam o vírus sem desconfiarem. Com cerca de 80% dos contaminados por Covid-19 se enquadrarem nessa categoria, e ainda assim transmitirem o vírus. Por isso, o alerta de Tânia faz sentido.

Outro motivo que leva as prefeituras a quererem a menor presença de visitante é necessidade de concentrar esforços para atender os moradores que podem enfrentar destelhamento e outras problemas em razão da nevada.

“A ideia é fazer esta campanha para comunicar os turistas. Temos outros problemas, como gelo na pista e as tempestades de neve, que muitas vezes causam destelhamentos”, ressalta a assessora de turismo da Amures, Ana Vieira.

Margarete tem uma sugestão aos turistas: “fiquem em casa”. “Isso vai passar, não é a última nevada.” “Se pudesse recebê-los, com certeza estaria recebendo. Posso até ganhar dinheiro, mas também posso perder minha vida. Vou esperar passar essa fase”, conclui.

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