Acontecimentos

Caminhos para retomada das aulas pós-pandemia

Com o início da flexibilização do isolamento social e a retorno gradual das atividades nas cidades brasileiras, o planejamento para a retomada das aulas começa a ser definido. Se não houve tempo para planejar o regime especial das aulas não presenciais, também chamadas de ensino remoto, para atender os alunos de forma emergencial nas suas residências durante a suspensão das aulas, agora há mais tempo para viabilizar a volta às escolas, porém ainda há muitas dúvidas.

Alunos chineses na volta às aulas. Foto: Freepik.

A volta dos alunos não deve ser planejada como uma atividade habitual, tal qual o retorno de férias prolongadas pelo simples motivo de não ser o caso. O desafio continua sendo excepcional pelo impacto inédito causado na educação. A pandemia da Covid-19 resultou no fechamento dos estabelecimentos de ensino em 188 países, afetando 91% dos alunos no mundo, segundo a UNESCO. A animação abaixo demonstra a evolução das escolas afetadas entre 16 de fevereiro e 25 de março de 2020:

Crédito do gif: Desafios da Educação.

É necessário destacar que o termo educação pós-pandemia é impreciso, pois não sabemos exatamente quando o surto irá terminar, por não ainda existirem vacinas e remédios comprovados cientificamente para conter novas ondas de contaminação do Coronavírus. Independente disso, para colaborar nesta caminhada de planejamento, este texto reúne informações sobre algumas experiências e recomendações já iniciadas em outros países, que estão saindo mais cedo da crise, mas contextualizadas para a realidade brasileira.

Fotomontagem de alunos ao redor do mundo (Timor-Leste, Ucrânia, Macedônia e Ruanda) durante a pandemia. Crédito das fotos: UNICEF

Antes das recomendações, duas observações se fazem necessárias. A primeira dela é um elogio ao protagonismo dos gestores escolares, pedagogos, professores e pais de alunos nesta crise. Apesar das dificuldades metodológicas e de infraestrutura técnica, o papel desempenhado por eles durante a pandemia foi fundamental para que o atendimento dos alunos se realizasse, mesmo com a falta de coordenação e articulação nacional esperada pelo Ministério da Educação e mesmo sem uma diretriz objetiva de algumas redes de ensino (estaduais e municipais), que preferiram o imobilismo, acreditando que a suspensão das aulas seria de poucos dias e não meses.

A segunda observação é uma crítica ao negacionismo dos tecnofóbicos. A confusão conceitual entre aula não presencial, ensino remoto e EAD demonstrou que a transposição didática do presencial para o virtual não é uma tarefa simples e sem uma teoria educacional, apesar da aceleração impulsionada pela crise sanitária da Covid-19 servir para promover a inserção da educação híbrida (blended learning) nas escolas. Uma recente pesquisa do SINPRO-DF demonstrou que para 65,76% dos professores o retorno das aulas deveria ser de forma presencial combinadas com atividades a distância, enquanto 34,24% dos professores as aulas deveriam ser apenas presenciais.

Não se pode desconsiderar neste cenário a grave desigualdade digital existente no país. A exclusão no acesso à internet, por exemplo, ficou ainda mais exposta com as escolas fechadas. O fato de existirem aparelhos celulares na maioria das residências não significa que existam equipamentos disponíveis para todos e a conectividade necessária para assistir videoaulas. Sobre a falsa universalização da internet no Brasil, recomendo a leitura deste outro artigo sobre o tema.

O diagrama de Venn acima é uma representação gráfica das recomendações deste artigo para a retomada das aulas, colocando os alunos como interseção central. A relação entre a reabertura das escolas, os novos protocolos de saúde e as estratégias de aprendizagem é que vai definir o melhor caminho de cada escola neste percurso, pois não este é um caminho único e nem pode ser copiado de outros contextos.

Embora sejam apresentadas algumas indicações de ações neste texto, como sugestões de referência para o planejamento, o primeiro passo a ser dado por cada rede de ensino e por cada escola deveria ser a realização de uma audiência pública virtual para que a comunidade escolar possa dar as suas contribuições. A participação dos professores em um planejamento educacional é imprescindível. É preciso dar voz aos educadores para falar de educação.

Sala de aula na Indonésia. Crédito: W. Kurniawan/Reuters.

Baseado nos relatórios e estudos publicados nos últimos dois meses pela OMS, UNESCO, UNICEF e Sociedade Brasileira de Pediatria, escritos por especialistas da área de saúde pública, compreende-se claramente que não será possível o retorno das atividades escolares sem a incorporação de protocolos de segurança sanitária mais rígidos, que podem ser iniciados antes da reabertura das escolas. O quadro abaixo demonstra as principais recomendações da preparação para o retorno:

Mesmo que não seja possível para as escolas seguirem todas essas indicações, os protocolos devem ser colocados em pauta para avaliação do impacto de cada item na segurança sanitária dos alunos e professores. Desta maneira, pode-se decidir melhor a data para o retorno de forma segura para todos.

As regras de distanciamento social, além da nova etiqueta de tosse e higiene respiratória devem ser repassadas aos alunos antes do retorno por meio de panfletos de orientação e prevenção (impressos e virtuais), com tutoriais nas redes sociais e aplicativos de mensagens. Os casos de alunos e familiares com sintomas gripais permanecerem em casa e informarem a escola já existia pouco antes da paralisação, mas devem ser reforçados nesses informativos. Além do mais, os eventos escolares, ou seja: todas as atividades que envolvam coletividade (jogos, festas e reuniões) devem ser suspensas enquanto persistirem as restrições sanitárias.

De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, a utilização de máscaras deve ser incentivada como forma de reduzir o contágio, exceto para crianças menores de 2 anos de idade (que podem se sufocar). No Brasil, o uso provavelmente será obrigatório por meio de decretos estaduais e municipais, porém como assegurar a troca ou descarte seguro das máscaras a cada 2 horas nas escolas? Alguns dos protocolos acima poderão ajudar, mas vão requerer a consciência e colaboração de todos.

Alunos de ensino médio no Vietnã. Foto: vietnamnews.vn

Ademais, pessoas com problemas respiratórios, incapacitadas e que não consigam remover as máscaras sozinhas, assim como alunos imunocomprometidos que tenham contraindicações de frequentar a escola ou tenham doenças crônicas, devem ter a alternativa de receber a educação em casa. Isso significa que o planejamento deve considerar a extensão do ensino remoto mesmo com o retorno das aulas presenciais.

De acordo com a pesquisa do SINEPE-DF, 23,2% dos alunos estão no grupo de risco da Covid-19. Será necessário um acompanhamento da sociedade para garantir equidade no atendimento desses alunos.

Antes da pandemia, apenas 28% das escolas brasileiras localizadas em áreas urbanas contavam com algum ambiente ou plataforma de aprendizagem a distância para atender os alunos, segundo a pesquisa TIC Educação 2019, divulgada pelo CGI.br este ano. Esse era o ponto de partida das escolas no início do surto. Além de investir em soluções de apoio tecnológico, será necessário subsidiar o acesso dos alunos e cobrar políticas públicas de telecomunicações mais eficazes, principalmente nas áreas distantes dos centros urbanos.

Outra recomendação é em relação à dinâmica do regresso dos alunos. Não será possível voltar todos de uma só vez. O retorno às escolas deve ser escalonado em um sistema de rodízio dos alunos, dividindo a turma em grupos menores para evitar aglomerações, iniciando preferencialmente com os alunos do ensino médio. Os alunos menores de 10 anos, embora menos suscetíveis ao vírus, podem ser vetores de transmissão, segundo os especialistas, mas existe uma pressão sobre o retorno precoce dos alunos da educação infantil e 1ª etapa do ensino fundamental, para que os pais possam voltar a trabalhar. A decisão vai ser das prefeituras.

A realidade do número de alunos por sala de aula no país não pode ser esquecida. Conforme demonstra os Indicadores Educacionais do INEP, os dez estados brasileiros com maior média de alunos por turma, considerando o 1º ano do Ensino Médio como referência, tiveram em 2019 uma média entre 37 e 44 alunos por sala de aula. O distanciamento social recomendado de 1,5 metro em salas de aula superlotadas é inviável, por isso as turmas precisam ser divididas em duas ou três salas e não frequentar os mesmos dias e/ou horários.

Sala de aula sendo preparada na Alemanha. Foto: Alex Grimm/Getty Images

Um exemplo que não pode ser ignorado neste cenário é o que aconteceu no Reino Unido, cujas aulas estavam previstas para voltar em junho com a proposta de distanciamento social de 2 metros entre os alunos nas salas de aula, cantina e pátio escolar. Entretanto, por não poder garantir espaço suficiente para receber os alunos com esse distanciamento e nem para manter apenas 15 alunos por turma, como havia sido determinado pelo governo, eles voltaram atrás e transferiram o retorno das aulas para setembro.

No Brasil, o retorno gradual dos alunos terá um impacto no cálculo das 800 horas/ano, que continuam sendo obrigatórias. Parte da carga horária, precisará ser cumprida por meio de atividades remotas (com ou sem mediação tecnológica). Além disso, os horários de entrada e saída dos alunos devem ser diversificados entre as turmas e níveis de ensino, assim como os intervalos, tornando-se outro desafio organizacional.

Qualquer planejamento a ser decidido irá levar em consideração a carga horária cumprida pré-pandemia, a estimada durante o regime especial (caso tenha sido oferecida alguma alternativa com validade acadêmica no município/escola em questão) e os dias letivos restantes deste ano para definir o melhor caminho pedagógico. A maior parte dos estados brasileiros está avaliando uma data de retorno a partir de agosto, embora alguns locais estejam se programando para o final de julho, mas ainda sem confirmação oficial. Como referência, considerando o dia 3 de agosto como estimativa da retomada, serão 20 semanas (aproximadamente 100 dias letivos) até o Natal. Matematicamente não será possível alcançar as 800 horas em 2020.

Isso não significa que o ano letivo está perdido. Uma avaliação diagnóstica bem elaborada no retorno irá dar as informações necessárias para cada escola planejar a reposição da aprendizagem, a partir de equivalências de estudos e planos dirigidos. Maranhão, Distrito Federal e São Paulo já deram indicativos que essa necessidade de reposição irá após 2021. O prejuízo na aprendizagem em 2020 é inevitável pela desigualdade e pela descontinuidade causada pelo impacto da pandemia. É necessário aceitar a disrupção e repensar os próximos 2 ou 3 anos, no mínimo.

Além das questões de saúde e higiene, a escola deve se preparar para oferecer apoio emocional aos seus alunos. Os possíveis efeitos na saúde mental dos alunos vão requerer uma resposta intersetorial das instituições de ensino. O suporte psicológico, a assistência social e o trabalho pedagógico para o desenvolvimento socioemocional devem fazer parte do planejamento escolar.

Mesmo como todos esses cuidados, é natural haver uma insegurança no retorno por parte dos pais e professores. Quando a Bielorrússia reabriu as escolas, por exemplo, apenas 30% dos alunos compareceram. Nas Filipinas, as aulas presenciais iriam retornar em agosto, mas o governo mudou de ideia e decidiu que as escolas vão permanecer fechadas até o surgimento de uma vacina. Os alunos filipinos vão continuar seus estudos de forma remota, via internet, apesar da desigualdade digital naquele país ser expressiva. É um dilema a ser considerado em nossas escolhas.

Reunião de professores por videoconferência nos EUA. Foto: Boulder City Review.

A formação inicial e continuada de professores há tempos precisa ser repensada, mas a gestão da crise atual certamente se tornará um marco referencial e deve ser incluída na preparação e atualização profissional dos educadores. Nesses três meses sem aulas presenciais os 2,5 milhões de professores que existem no Brasil poderiam ter participado de alguma atividade de formação docente ou debate educacional promovido pelo MEC ou pelas secretarias de educação, mas nada aconteceu em nível de sistema, só iniciativas isoladas.

Em relação à reorganização do Calendário Escolar o documento de referência no Brasil é o Parecer nº 05/2020, do Conselho Nacional de Educação (CNE), homologado no início de junho pelo Ministério da Educação. O documento aborda o cômputo das atividades não presenciais para fins carga horária, entre outras orientações. Embora a homologação do MEC tenha sido parcial, deixando de fora o item específico sobre avaliações e exames, o parecer apresenta as diretrizes legais para as redes de ensino se organizarem, mas também questiona: Como reorganizar os calendários escolares, considerando as condições particulares de cada rede, escola, professores, estudantes e suas famílias?

Espera-se que as restrições sejam temporárias. Entretanto, o maior desafio do retorno talvez não seja adotar um protocolo de saúde ou oferecer uma solução tecnológica como alternativa, mas a concepção de uma educação mais flexível e personalizada. Os alunos terão o seu direito à aprendizagem ameaçado se não houver um planejamento de novas estratégias baseado no diálogo que considere essas variáveis. De qualquer forma, não será um retorno à normalidade. O mundo mudou por causa desta pandemia e a educação também precisa de mudanças. Insistir no modelo anterior, como se nada tivesse acontecido, apenas irá aumentar o insucesso escolar e a exclusão.

Fonte médio com

Mostrar mais

Tradição Gaúcha

o melhor da cultura Gaúcha do Rio Grande e também notícias do Brasil e do mundo sempre trazendo o melhor da notícia..

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar
%d blogueiros gostam disto: