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OS VERDADEIROS GAÚCHOS

Há aquele que se orgulha de preparar o churrasco. Mas valente de raiz é o que esfrega os espetos. Longe de testemunhas e de plateia, enfrenta a gordura embebida de sal grosso com esponja de aço e persistência.

Dentro de todo orgulhoso assador, deve existir o lavador humilde, que se curva à pia com igual sabedoria que vira as carnes.

Tudo bem se portar com empáfia diante do fogo alto, desde que também mergulhe no anonimato da sombra e da faxina.

Crime perfeito é o que não deixa vestígios. Alegria honesta é a que some com a sujeira.

Ninguém da família precisa se preocupar em pagar o almoço com o trabalho forçado. Fazer e limpar corresponde a cumprir com a integridade de anfitrião, façanha para merecer o avental e honrar o uso das armas brancas.

Gaúcho é o que cuida de sua bagunça, que não somente comemora a picanha sangrando, a costela no ponto, o coraçãozinho dourado, a linguiça calabresa queimando na língua, a crosta deliciosa do pão com alho, mas o que também lustra as espadas da batalha e guarda o jogo na bainha da paciência.

É o que some do burburinho, no melhor da conversa, para adiantar o serviço. É o que fica, após a comilança e a música alta, para recolher as cinzas dormidas e varrer a churrasqueira. É o que não deseja simplesmente colher os louros de seu assado com a gamela e a lâmina afiada. É o que sabe que a sua tarefa só estará finalizada ao devolver o brilho para sua armadura.

Não há heróis antes do fim da guerra.

O mesmo podemos dizer para quem não desenterra o mate vencido da cuia.

Chimarrear é fácil, difícil é cavar o cimento da erva parada. Poucos são os coerentes, que usam e logo retiram o passado do porongo. Raros são os generosos com a família, atentos em jogar fora os restos, pensando em facilitar a vida do próximo que passear a boca e os pensamentos na água quente.

O que mais vejo é gente sem noção, sugando chimarrão até perder a graça e abandonando o recipiente consumido em cima da mesa, ao deus-dará, esperando que um bom samaritano realize a caridade da lavagem.

Gaúcho de verdade vai até o fim o que começou. Não foge da responsabilidade que vem depois do prazer.

Fonte Foto de Vicente Carpinejar

Fabrício Carpinejar

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